
O SENTIDO DA LUZ NA ARQUITETURA
O projeto arquitetônico final é resultante de pesquisas e derivas feitas no centro da cidade de Ribeirão Preto. Entre fotografias, escritas e desenhos a arquitetura se solidifica como uma forma de expressão e manifesto.
Localização: Ribeirão Preto - SP
Ano: 2022
Orientadora: Profa. Me. Rita de Cássia Fantini de Lima
O trabalho inicia-se através de uma aproximação sensível do centro da cidade de Ribeirão Preto, utilizando a Deriva como um procedimento projetual e sensorial na busca do sentido da luz e suas nuances na arquitetura. Entre o desejo da percepção, sensibilidade e empatia, o caminhar na cidade desenha a trajetória do corpo dentro do cotidiano acelerado e árduo. O reconhecer torna-se um elemento concreto, dúvidas são dispostas e impostas pelo espaço da cidade. O contato direto com a realidade social de um centro tão fragilizado, entre necessidades e a invisibilidade, incita o despertar e a busca por um cotidiano íntegro.
A concretização do pensamento é efetuada com desenhos, anotações e fotografias, o qual além de estar em busca da grafia da luz, tem como objetivo retratar o silêncio e a memória já esquecida da cidade. Os terrenos, chamados de fragmentos, são escolhidos por uma motivação ao resgate da memória, requalificação do espaço e a busca da luz. Diante dos desafios, os projetos têm como prerrogativa serem ambientes públicos, sem limites de acesso, abertos a qualquer à horário, que cumpram seu papel social e possam ser desde um abrigo até um respiro. Este conjunto de fragmentos é designado constelação, como um grupo de vagalumes dentro de um espaço, a existirem em resistência na eterna busca do despertar.


Contando com a liberdade poética, irei me referir de forma pessoal sobre minhas derivas. Começo traçando estratégias de como fazer derivas, entre horários e áreas da cidade, sem comunicação por telefone, apenas com minha câmera fotográfica, caderno e lápis.
A cada deriva o corpo passa por situações diferentes dentro da cidade, espaços antes conhecidos não são tão conhecidos mais. Sentimentos como angústia, medo e desconfiança foram presentes ao início das derivas. Ao deparar com tantas questões sociais esquecidas pela sociedade, é um tanto quanto estremecedor. Durante o período da pandemia do covid-19, houve uma ausência ainda maior do uso da cidade. Batalhas que agarramos de casa, pela internet, apesar de serem importantes, acaba por não substituir a presença na atual situação e ter sua própria experiência. Estar imerso neste universo e criar comunicações com pessoas em um ambiente tão vasto. A aproximação com pessoas em situação de rua foi e sempre será de extrema importância, a empatia é apenas o início de uma caminhada que possamos ser mais solidários. Portanto esses sentimentos foram intensificados justamente por ver toda a desigualdade e a falta de política pública eficiente para os mais necessitados.
Ao iniciar a busca da grafia da luz, o projeto torna-se muito maior e potente a partir do momento em quem o corpo passa a sentir a realidade, o presente. O estar presente no centro da cidade tão fragilizado serviu de motivação para o desenvolver do trabalho, entender como o social e a cidade não andam separados, potencializou a procura da justificativa aos problemas.
Com o passar das derivas, em dias diferentes, a visão sobre o espaço aumenta-se, questionamentos são feitos e motivações são despertadas. A cada deriva tento expressar por via de fotografia e anotações o que foi visto e o registro da grafia da luz.
A ultima deriva conclui o ciclo da experiência, e age como uma grande liga entre todas. Os registros da invisibilidade perante a sociedade são vistos, e deixa uma direção de como os projetos que serão desenvolvidos podem seguir. Devem atender a todos, cumprir seu papel social e sensível para o centro. Ao passar das derivas os sentimentos são variados, e ao fim, a motivação é encontrada. O propósito é declarado, a eterna busca do despertar.


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Após a sobreposição dos mapas das derivas realizadas, terrenos potenciais são observados, denominados de fragmentos. Os mesmo escolhidos são chamados de constelação ao coletivo.
Todos atuam como uma ligação em sua poesia, objetivo, materialidade e resistência.
Como pequenos vagalumes ao meio da cidade, estes fragmentos iluminam o espaço ao entardecer e filtram a luz ao sol poente, procurando provar o despertar e o conforto de seus usuários.








O desejo, a matriz do projeto inicía-se pela curiosidade na fotografia e o movimento da luz. A grafia que ali fica marcada, com seu indício poético, nem sempre é interpretado dessa forma. Esse projetoalmeja um sentido, um SENTIR da luz.
O processo inicial é executado através de derivas. As fotografias, desenhos e outros documentos gerados deste ato, concretiza o pensamento ainda tímido, que seria a busca deste SENTIR da arquitetura pelo usuário.
Após o processo gráfico e leituras conceituais, por uma ação física, a maquete de gesso é produzida como uma forma de expressão destes ideais. Através de processos entre subtração e adição da topografia, cria-se possbilidades formais e funcionais desta luz em um ambiente,
A maquete foi criada pensada na topografia do primeiro fragmento, a Praça Carlos Gomes. Apesar deste fato, seus processos não se limitam a apenas um destino ou situação. A partir da maquete física, o processo criativo continua através de de desenhos manuais e também por maquetes virtuais, 3D.

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LOCAL I
O fragmento denominado como LOCAL I, localiza-se na Praça Carlos Gomes ao lado da Praça XV de Setembro. O entorno imediato conta com vários equipamentos públicos e histórico da cidade de Ribeirão Preto.
A área foi escolhida devido o desejo de recuperar a memória do antigo Teatro Carlos Gomes, projeto do arquiteto Ramos de Azevedo em 1897, demolido na década de 40. O espaço não consta com nenhuma forma de memória, apenas uma área central com vegetação mínima e pequenas intervenções artísticas.
A partir desta motivação, o projeto executa uma ação de subtração no terreno, para intervir de forma sutil na paisagem da Praça Carlos Gomes. Ao efetuar essa ação é como se o projeto fosse o inverso do antigo Teatro Carlos Gomes. Foi efetuado um estudo de sua estrutura antiga, para assim pensar em como potencializar essa memória e seu uso para a cidade. A área é
prevista para apresentações como um teatro grego, um ponto de encontro, uma passagem sensível ao centro da cidade, acompanhado com equipamento público de banheiros e chuveiros para a população.
A estrutura de concreto armado é usado como linguagem e se repetirá conforme os projetos. Coloca-se a abertura zenital em evidência, executada intencionalmente para buscar a luz ao subsolo, provocar reflexão à memória do antigo teatro. Suas escadas localizam-se como as escadas originais do antigo projeto, e a rampa como suas portas do fundo.
A luz natural, como em todos os projetos a seguir, terá papel essencial. Apesar da afirmação, planos iluminados são pensados, para terem como função a iluminação noturna e mudarem de cor, funcionando como uma lanterna para o centro da cidade, a fortalecer a idéia de uma constelação de pequenos vagalumes.
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LOCAL II
O fragmento Local II, localiza-se logo a frente da Praça XV de Setembro, entre a Rua General Osório e a Rua Tibiriça, com a intenção se cortar o quarteirão ao nível térreo.
O terreno encontra-se entre dois edifícios, com uma passagem estreita de dois metros de largura na Rua General Osório e três metros na Rua Tibiriça. O desafio imposto pela sua estreita área, instiga a busca da luz acima do gabarito de seu entorno imediato. Sua poética está entre o caminhar do projeto e após escalar suas longas escadas para acessar seus diversos pavimentos, há sempre uma surpresa para o corpo com aberturas zenitais e vegetação. Devido sua aproximação com a Praça Carlos Gomes e XV de Setembro, a vegetação posta em seus diferentes pavimentos, de forma que os visitantes possam usufruir deste pequenos espaços de silêncio e vistas. Como contradição o projeto indaga a atual utilização das Praças ao seu redor, onde é negado a possibilidade de efetuar gestes importantes e pequenos como o deitar na grama.
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LOCAL III
O fragmento Local III, encontra-se a frente do CPC e ao lado do Mercado Municipal. Assim como o Local II, apresenta um desafio devido sua área estreita entre construções já existentes.
Ao utilizar da ação de adição no terreno, buscando a luz acima do gabarito, com cortes preciso para a entrada da luz natural, o projeto tem como leitura seu entorno, a água. O objetivo é trazer o movimento da água constante e sua leveza para o projeto, equipado com espelhos d’água e piscinas. Além do lazer, o projeto prevê o uso de seus banheiros públicos para banho, com acessos PNE em todo projeto.
Nota-se uma necessidade maior na baixada do centro de Ribeirão Preto, com maior presença de pessoas em extrema vulnerabilidade. Portanto o projeto age de forma delicada ao tratar a luz, mas também em poder oferecer abrigo e utilidade para quem tiver a necessidade de seus equipamentos.
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LOCAL IIII
O fragmento Local IIII, situa-se ao meio do quarteirão, com três entradas diferentes. Devido sua grande área, foi possível uma maior experiência projetual, com suas nuances de luz e sua maior importância com a permanência do corpo em seu espaço.
Projeto atua como uma passagem entre ruas, causando um momento sensível e de descanso ao visitante. A permanência torna-se o maior motivador de sua execução. Encontra-se também banheiros públicos e áreas que possibilitam o descansar do corpo ou torna-se uma área de encontro e trabalho.
Há uma movimentações de planos, onde é possibilitado a vista de diversas maneiras, um tanto fora do comum, com a intenção de manter sempre a surpresa aos olhos. Com grandes aberturas, as vistas são pensadas objetivamente, visando áres específicas da área, como a vegetação existente, o por e nascer do sol ou então áreas do centro da cidade, como a palmeiras da Avenida Jerônimo Gonçalves.
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